segunda-feira, 26 de outubro de 2015

É assustador.
É assustador quando todas as minhas dúvidas se começam a converter em certezas.
E isso deveria ser bom. E na maior parte do tempo, se me perguntarem, dir-vos-ei que sim, que é bom, que é óptimo saber o que quero fazer com todo o resto da minha vida e que isso me dá uma imensa paz de espírito.
Nos outros momentos dir-vos-ei que não gosto assim tanto de estar presa a uma ideia. Que estar presa a uma ideia pode apenas deixar-me sem chão se não conseguir, se falhar. Não seria a primeira vez que iria sem plano B fazer algo que decidiria a minha vida e falhava.
E sim, deve dar. Dá quase de certeza. Daria nos últimos mil anos. Porque é que este havia de ser diferente? Mas a verdade é que já me aconteceu uma vez. Já fui do "ano diferente" uma vez.
E portanto tenho medo. Muito medo. Mas é só às vezes. Das outras vezes limito-me a ADORAR o que faço e a sonhar acordada com toda uma vida mais ou menos assim.

domingo, 2 de agosto de 2015

Mas o que andas tu a fazer Jo?

Estes últimos meses têm sido uma roda viva. Preparar um casamento dá IMENSO trabalho. Especialmente porque, como temos tempo já que só casaremos lá para meio de 2016, queremos fazer as coisas da melhor maneira possível. Isso implica muitas horas de pesquisa na internet (vestidos e fatos, convites, temas, decoração das mesas e do espaço...), no pinterest, muitas horas de visitas a espaços/quintas/hotéis (tenho a dizer-vos que vi sítios tão maus que tive medo que me arrancassem um rim à saída, mas outros tão bonitos que ainda estou a fazer contas à vida para saber como posso esticar o dinheiro para lá chegar) e muitas horas de volta da lista dos convidados. Na primeira lista que fizemos chegámos sem qualquer dificuldade às 150 pessoas, o que seria, com muita pena nossa, incomportável com os orçamentos que nos têm apresentado. Depois há a questão da casa porque quer eu quer o J. ainda vivemos em casa dos nossos pais. Também corremos tudo o que era site de imobiliárias, olx, imovirtual, trovit... Mas acabou por ser mesmo num passeio de carro que encontrámos "a nossa casa" com um letreiro na janela. Isto levou a todo um outro conjunto de coisas a tratar: pedidos de simulações em tudo o que é banco, pedidos de orçamentos para as obras que vão fazer daquela casa o nosso palácio, contratos e pedidos de empréstimos... Não tem sido fácil organizar tudo isto, mas tem sido uma fase espectacular. Das melhoras da minha vida sem qualquer sombra de dúvida. Segue-se a escritura da casa algures nos próximos 3 meses. Depois as obras. E a decoração do apartamento de raiz. Eu já só sonho com o nosso dia-a-dia na nossa casa. Com as noites à lareira, os pequenos-almoços à pressa para cada um ir para o seu trabalho, as horas que vão ser para escolhermos O sofá, A cama, O frigorífico... Sonho com as jantaradas com os amigos lá em casa que serão certamente mais que muitas. Sonho até com as horas de estudo para os exames de especialidade e para as necessidades diárias na minha escrivaninha de quando era criança que ficou guardada e vai direitinha la para casa. E sim, sonho com o dia em que de dois passaremos a 3 ou 4 (mas ainda vamos deixar esse sonho em espera mais uns anitos). A pairar por cima de tudo isto há o fantasma da escolha das especialidades, mas já decidi não me consumir com isso nos próximos tempos. Só posso escolher em Dezembro e até lá há muito pouco que possa fazer em relação a isso. Os estágios têm corrido bem o suficiente para eu ter a certeza de que seria feliz em várias especialidades diferentes (excepto especialidades cirúrgicas. Aí acho q choraria todos os dias quando o despertador tocasse).

domingo, 26 de abril de 2015

Tudo. A surpresa. A sensação de ter o chão a fugir debaixo dos pés, mas ao mesmo tempo a segurança que ele me transmite simplesmente por estar ali. E hoje com um joelho no chão. Um "estás a gozar" que foi a única coisa que consegui dizer porque tudo era tão inacreditável, tão mágico, tão espontâneo mas ao mesmo tempo tão premeditado e planeado... Aquela taquicárdia que vem quando sinto que a minha vida vai mudar. E se vai... Mas vai mudar tão bem. O medo da mudança. Que foi tantas vezes sonhada e falada e pensada e que ali, naquele segundo, se torna real e bate forte. Imagens. Passam-me pela cabeça milhares de imagens naqueles segundos. Imagens passadas, imagens de um futuro que pode ser. E sorrio. Sim, sim, sim. As pernas tremem-me. Ele mete-me o anel no dedo com todo o cuidado. O dedo que com a minha mão não pára de tremer. Os olhos a brilhar. Os meus e os dele. Abraço-o. Beijo-o. E ficamos ali naquele sim que é para a vida e que é só nosso.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Curei-a

Curei-a. Quando chegou não estava nada bem, como podem ver pela imagem abaixo. Confesso que não foi difícil. Tenho experiência nesta área, são muitos anos de prática. Sinto-me mesmo confortável na maioria dos casos. Em dez minutos já tinha revertido o quadro. Assim que garanta que está tudo estabilizado e que não tem nenhuma recaída nos próximos tempos terá alta.

domingo, 11 de janeiro de 2015

" Sabe Dra... Às vezes penso: "mas porque é que estes meninos vêm ao mundo??" É que é só mesmo para sofrer! Irra! O corpo deles está morto Dra.. Estão cá mesmo só para sofrer... Não é filho? Coisa mais boa da vida da mãe... Sempre aqui enfiados... Oh meu Luis... Nunca mais vamos para casa. Queres ir ao supermercado? Sabe Dra, ele adora ir ao supermercado... Não é filho? Vamos ao 'cado? Vamos? Agora só daqui a uns meses... Se correr bem, daqui a uns meses.
Já são 11 anos disto Dra... Já mal posso com ele ao colo... É um peso morto... Enquanto houver forças... Quem me dera que Deus dividisse as minhas forças com ele. E andávamos os dois coxos. Não era filho?"

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

De repente

De repente sou médica no hospital onde durante 6 anos fui aluna.
De repente tenho um contrato de trabalho para assinar, tenho de pensar se quero descontar para a ADSE.
De repente o exame que parecia um bicho de sete cabeças foi mesmo um bicho de sete cabeças e não correu bem mas deve servir para aquelas que são as minhas hipóteses.
De repente há todo um novo conjunto de incertezas quanto a especialidades e ao tipo de vida que quero ter. E voltam dúvidas antigas, que achava que já estavam mais que resolvidas. Dar ouvidos ao que toda a gente tem a dizer sobre o que seria melhor para mim é por um lado produtivo porque me faz repensar algumas coisas, mas por outro lado faz uma espécie de salada de frutas dentro da minha cabeça.

De repente falta um ano para ter de escolher a especialidade.

De repente sou médica a sério.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

A uma semana

Quando tinha 17 anos e não consegui entrar em medicina vi-me forçada a abrir horizontes. Não queria ficar novamente com uma média de 18 pendurada sem vaga para mim. E a hipótese que me pareceu mais lógica foi Espanha. Era aqui ao lado e entre ir para Badajoz ou para o Minho ou Madeira a diferença não era muita.
Inscrevi-me num curso de Espanhol, tratei dos processos de candidatura, de todas as equivalências e das traduções oficiais dos documentos.
Depois soube de uma outra hipótese. Uma universidade privada em Espanha também, a Universidade de Navarra. A distância era maior (implicava ir de avião e só faziam um voo para lá por semana, o que significava que não poderia vir cá com a frequência que queria). Falei com os meus pais e eles disseram-me que devia tentar. Mas havia um problema: para Navarra as minhas notas de cá só não chegavam. Teria de fazer um exame de admissão na universidade. O exame era dali a um mês, englobava as matérias de química, biologia e espanhol do 12º ano. Os programas eram diferentes dos de cá, mas mesmo que fossem iguais não faria grande diferença porque a minha disciplina opcional de 12º tinha sido psicologia.
Achei que a hipótese de conseguir era remota (estaria a competir com pessoas de língua nativa espanhola, dado que o exame era igual para todos, e que efectivamente tinham estudado aquelas disciplinas a sério). Mas tinha de tentar. Não queria cair no erro de pôr novamente os ovos todos no mesmo saco.
Pedi os livros espanhóis emprestados a uma amiga mais velha que tinha tentado fazer os exames uns anos antes. E entre pedir, encontrar-me com ela e tratar de todas as papeladas que precisava para esta outra Universidade lá se perdeu uma semana. O programa tinha mudado ligeiramente desde que a S. tinha tentado fazer os exames de Espanha, mas achei que se soubesse aquilo já não era nada mau. Uma semana para biologia, duas para química. O Espanhol estudava-se enquanto se lia química e biologia em espanhol. Não dava para mais. Ainda li os dois últimos capítulos de química no avião.
No dia do exame éramos centenas. Não haveria vagas para todos. Talvez para um em cada dez. Não mais do que isso. E era assustador olhar à minha volta e ver tantos "adversários". Entrei na sala e agora que penso nisso não faço ideia de quanto tempo duraram os exames. Fi-los com a certeza de que havia coisas que tinha lido e das quais não me recordava. E quando cheguei ao exame de Espanhol tive de me conter para não me desmanchar a rir. Como é que eu podia sequer pensar em competir com alunos espanhóis numa prova de língua???
Semanas depois, o meu pai veio ter comigo de lágrimas nos olhos, tão feliz! Tinha ido ver ao site da universidade e as colocações tinham sido lançadas. Eu tinha entrado.
Com 18 anos consegui engolir os nervos, estudar até ao último segundo e fazer um exame para o qual não me sentia devidamente preparada. E no final até correu bem. Hoje, 6 anos e meio depois de ter escolhido ficar em Portugal e a uma semana daquele que será, segundo dizem, o exame mais difícil de toda a minha carreira médica, só espero conseguir fazer o mesmo.