domingo, 26 de abril de 2015
Tudo. A surpresa. A sensação de ter o chão a fugir debaixo dos pés, mas ao mesmo tempo a segurança que ele me transmite simplesmente por estar ali. E hoje com um joelho no chão. Um "estás a gozar" que foi a única coisa que consegui dizer porque tudo era tão inacreditável, tão mágico, tão espontâneo mas ao mesmo tempo tão premeditado e planeado... Aquela taquicárdia que vem quando sinto que a minha vida vai mudar. E se vai... Mas vai mudar tão bem. O medo da mudança. Que foi tantas vezes sonhada e falada e pensada e que ali, naquele segundo, se torna real e bate forte. Imagens. Passam-me pela cabeça milhares de imagens naqueles segundos. Imagens passadas, imagens de um futuro que pode ser. E sorrio. Sim, sim, sim. As pernas tremem-me. Ele mete-me o anel no dedo com todo o cuidado. O dedo que com a minha mão não pára de tremer. Os olhos a brilhar. Os meus e os dele. Abraço-o. Beijo-o. E ficamos ali naquele sim que é para a vida e que é só nosso.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
Curei-a
Curei-a. Quando chegou não estava nada bem, como podem ver pela imagem abaixo. Confesso que não foi difícil. Tenho experiência nesta área, são muitos anos de prática. Sinto-me mesmo confortável na maioria dos casos. Em dez minutos já tinha revertido o quadro.
Assim que garanta que está tudo estabilizado e que não tem nenhuma recaída nos próximos tempos terá alta.
domingo, 11 de janeiro de 2015
" Sabe Dra... Às vezes penso: "mas porque é que estes meninos vêm ao mundo??" É que é só mesmo para sofrer! Irra! O corpo deles está morto Dra.. Estão cá mesmo só para sofrer... Não é filho? Coisa mais boa da vida da mãe... Sempre aqui enfiados... Oh meu Luis... Nunca mais vamos para casa. Queres ir ao supermercado? Sabe Dra, ele adora ir ao supermercado... Não é filho? Vamos ao 'cado? Vamos? Agora só daqui a uns meses... Se correr bem, daqui a uns meses.
Já são 11 anos disto Dra... Já mal posso com ele ao colo... É um peso morto... Enquanto houver forças... Quem me dera que Deus dividisse as minhas forças com ele. E andávamos os dois coxos. Não era filho?"
Já são 11 anos disto Dra... Já mal posso com ele ao colo... É um peso morto... Enquanto houver forças... Quem me dera que Deus dividisse as minhas forças com ele. E andávamos os dois coxos. Não era filho?"
quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
De repente
De repente sou médica no hospital onde durante 6 anos fui aluna.
De repente tenho um contrato de trabalho para assinar, tenho de pensar se quero descontar para a ADSE.
De repente o exame que parecia um bicho de sete cabeças foi mesmo um bicho de sete cabeças e não correu bem mas deve servir para aquelas que são as minhas hipóteses.
De repente há todo um novo conjunto de incertezas quanto a especialidades e ao tipo de vida que quero ter. E voltam dúvidas antigas, que achava que já estavam mais que resolvidas. Dar ouvidos ao que toda a gente tem a dizer sobre o que seria melhor para mim é por um lado produtivo porque me faz repensar algumas coisas, mas por outro lado faz uma espécie de salada de frutas dentro da minha cabeça.
De repente falta um ano para ter de escolher a especialidade.
De repente sou médica a sério.
De repente tenho um contrato de trabalho para assinar, tenho de pensar se quero descontar para a ADSE.
De repente o exame que parecia um bicho de sete cabeças foi mesmo um bicho de sete cabeças e não correu bem mas deve servir para aquelas que são as minhas hipóteses.
De repente há todo um novo conjunto de incertezas quanto a especialidades e ao tipo de vida que quero ter. E voltam dúvidas antigas, que achava que já estavam mais que resolvidas. Dar ouvidos ao que toda a gente tem a dizer sobre o que seria melhor para mim é por um lado produtivo porque me faz repensar algumas coisas, mas por outro lado faz uma espécie de salada de frutas dentro da minha cabeça.
De repente falta um ano para ter de escolher a especialidade.
De repente sou médica a sério.
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
A uma semana
Quando tinha 17 anos e não consegui entrar em medicina vi-me forçada a abrir horizontes. Não queria ficar novamente com uma média de 18 pendurada sem vaga para mim. E a hipótese que me pareceu mais lógica foi Espanha. Era aqui ao lado e entre ir para Badajoz ou para o Minho ou Madeira a diferença não era muita.
Inscrevi-me num curso de Espanhol, tratei dos processos de candidatura, de todas as equivalências e das traduções oficiais dos documentos.
Depois soube de uma outra hipótese. Uma universidade privada em Espanha também, a Universidade de Navarra. A distância era maior (implicava ir de avião e só faziam um voo para lá por semana, o que significava que não poderia vir cá com a frequência que queria). Falei com os meus pais e eles disseram-me que devia tentar. Mas havia um problema: para Navarra as minhas notas de cá só não chegavam. Teria de fazer um exame de admissão na universidade. O exame era dali a um mês, englobava as matérias de química, biologia e espanhol do 12º ano. Os programas eram diferentes dos de cá, mas mesmo que fossem iguais não faria grande diferença porque a minha disciplina opcional de 12º tinha sido psicologia.
Achei que a hipótese de conseguir era remota (estaria a competir com pessoas de língua nativa espanhola, dado que o exame era igual para todos, e que efectivamente tinham estudado aquelas disciplinas a sério). Mas tinha de tentar. Não queria cair no erro de pôr novamente os ovos todos no mesmo saco.
Pedi os livros espanhóis emprestados a uma amiga mais velha que tinha tentado fazer os exames uns anos antes. E entre pedir, encontrar-me com ela e tratar de todas as papeladas que precisava para esta outra Universidade lá se perdeu uma semana. O programa tinha mudado ligeiramente desde que a S. tinha tentado fazer os exames de Espanha, mas achei que se soubesse aquilo já não era nada mau. Uma semana para biologia, duas para química. O Espanhol estudava-se enquanto se lia química e biologia em espanhol. Não dava para mais. Ainda li os dois últimos capítulos de química no avião.
No dia do exame éramos centenas. Não haveria vagas para todos. Talvez para um em cada dez. Não mais do que isso. E era assustador olhar à minha volta e ver tantos "adversários". Entrei na sala e agora que penso nisso não faço ideia de quanto tempo duraram os exames. Fi-los com a certeza de que havia coisas que tinha lido e das quais não me recordava. E quando cheguei ao exame de Espanhol tive de me conter para não me desmanchar a rir. Como é que eu podia sequer pensar em competir com alunos espanhóis numa prova de língua???
Semanas depois, o meu pai veio ter comigo de lágrimas nos olhos, tão feliz! Tinha ido ver ao site da universidade e as colocações tinham sido lançadas. Eu tinha entrado.
Com 18 anos consegui engolir os nervos, estudar até ao último segundo e fazer um exame para o qual não me sentia devidamente preparada. E no final até correu bem. Hoje, 6 anos e meio depois de ter escolhido ficar em Portugal e a uma semana daquele que será, segundo dizem, o exame mais difícil de toda a minha carreira médica, só espero conseguir fazer o mesmo.
Inscrevi-me num curso de Espanhol, tratei dos processos de candidatura, de todas as equivalências e das traduções oficiais dos documentos.
Depois soube de uma outra hipótese. Uma universidade privada em Espanha também, a Universidade de Navarra. A distância era maior (implicava ir de avião e só faziam um voo para lá por semana, o que significava que não poderia vir cá com a frequência que queria). Falei com os meus pais e eles disseram-me que devia tentar. Mas havia um problema: para Navarra as minhas notas de cá só não chegavam. Teria de fazer um exame de admissão na universidade. O exame era dali a um mês, englobava as matérias de química, biologia e espanhol do 12º ano. Os programas eram diferentes dos de cá, mas mesmo que fossem iguais não faria grande diferença porque a minha disciplina opcional de 12º tinha sido psicologia.
Achei que a hipótese de conseguir era remota (estaria a competir com pessoas de língua nativa espanhola, dado que o exame era igual para todos, e que efectivamente tinham estudado aquelas disciplinas a sério). Mas tinha de tentar. Não queria cair no erro de pôr novamente os ovos todos no mesmo saco.
Pedi os livros espanhóis emprestados a uma amiga mais velha que tinha tentado fazer os exames uns anos antes. E entre pedir, encontrar-me com ela e tratar de todas as papeladas que precisava para esta outra Universidade lá se perdeu uma semana. O programa tinha mudado ligeiramente desde que a S. tinha tentado fazer os exames de Espanha, mas achei que se soubesse aquilo já não era nada mau. Uma semana para biologia, duas para química. O Espanhol estudava-se enquanto se lia química e biologia em espanhol. Não dava para mais. Ainda li os dois últimos capítulos de química no avião.
No dia do exame éramos centenas. Não haveria vagas para todos. Talvez para um em cada dez. Não mais do que isso. E era assustador olhar à minha volta e ver tantos "adversários". Entrei na sala e agora que penso nisso não faço ideia de quanto tempo duraram os exames. Fi-los com a certeza de que havia coisas que tinha lido e das quais não me recordava. E quando cheguei ao exame de Espanhol tive de me conter para não me desmanchar a rir. Como é que eu podia sequer pensar em competir com alunos espanhóis numa prova de língua???
Semanas depois, o meu pai veio ter comigo de lágrimas nos olhos, tão feliz! Tinha ido ver ao site da universidade e as colocações tinham sido lançadas. Eu tinha entrado.
Com 18 anos consegui engolir os nervos, estudar até ao último segundo e fazer um exame para o qual não me sentia devidamente preparada. E no final até correu bem. Hoje, 6 anos e meio depois de ter escolhido ficar em Portugal e a uma semana daquele que será, segundo dizem, o exame mais difícil de toda a minha carreira médica, só espero conseguir fazer o mesmo.
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
Daqueles dias
Tenho-me aguentado bem. À tona da água. Tenho sobrevivido à maratona de estudo que tem sido este último ano (sim, já estou a estudar há um ano para este exame). E quando digo isto a alguém a resposta é sempre uma variante de um encolher de ombros acompanhado por um sorriso encorajador que me diz "vais ter uma ganda nota, já sabes tudo". Como se qualquer preocupação minha fosse desprovida de qualquer fundamento.
Não sei tudo. Estou longe de saber tudo. E quem está de fora não percebe, por mais que tente, que apesar de estar a estudar há um ano para isto não tenho sequer garantias de me conseguir manter à tona da água. Porque este não é um exame normal. De todo! Por exemplo, num exame normal se estiverem indecisos entre duas alíneas têm 50% de probabilidade de acertar, certo? Pois neste têm 90% de errar. Ou eu tenho. Foi assim que me aconteceu quando ontem decidi fazer o exame de há dois anos. Se calhar o problema é meu e não do exame. Deu-me agora para a burrice. Ou para a extrema falta de sorte.
Há dias assim. Em que me apetece esquecer isto tudo. Eu sou tão feliz no sofá a namorar e a ver umas séries. Ou a viajar. Bolas, sou tão feliz só no ginásio a fazer uma aulita de zumba. E quando consigo combinar coisas com os meus amigos... nem precisa de ser nada de especial. Na realidade sou feliz com pequenos momentos de estupidez.
Há dias em que me pergunto o porquê deste esforço se, feitas as contas, talvez não faça assim tanta diferença no final. O porquê de sentir necessidade de provar a mim própria (e aos outros) que consigo mais, que consigo melhor.
Mas depois passa. Tem de passar. E amanhã já é outro dia. E já só ficam a faltar 37 dias para eu ter a minha vida de volta.
Mas depois passa. Tem de passar. E amanhã já é outro dia. E já só ficam a faltar 37 dias para eu ter a minha vida de volta.
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
Do concerto de ontem
Ontem fui ao concerto do Anselmo Ralph às Festas do Mar.
Já não me lembro quando foi o último ano em que não fui ao último dia destas festas. E por isso mesmo, apesar de não ser a maior fã do Anselmo, acabei por ir pelo convívio, pelo fogo de artifício (que adoro), e já agora porque a cavalo dado não se olha o dente (porque pagar para ir ver o Anselmo Ralph já me custava, mas assim de graça pareceu-me bem).
Chegámos em cima da hora do concerto e o grupo acabou por se separar no meio da multidão. Nunca tinha visto a baía assim. Nada que não estivessemos já à espera. Tinha-se antecipado que lá estivessem 90.000 pessoas. Não deve ter andado longe disso.
Tinha lido sobre o "meet", e por isso estava alerta. O concerto foi bom, não me senti minimamente insegura enquanto lá estive (senti-me como uma sardinha em lata, mas segura) e tive o bom senso de me pôr a andar dali para fora quando comecei a achar que os ânimos se estavam a exaltar e que podiam começar a haver problemas. À saída da baía cruzámo-nos com a polícia de intervenção (havia MUITA polícia nas festas, ao contrário do que já ouvi nas notícias) e acabámos por decidir ir mesmo para casa ainda antes do fogo de artifício por precaução.
Agora vamos àquilo que me impressionou verdadeiramente. Não foi o facto de a baía estar tão cheia (já sabia, foi noticiado a semana toda que esperavam 90.000 pessoas). Não foi o terem havido desacatos e ter havido pessoal a levar facadas (já sabia que ia acontecer. Aliás, assim que estacionámos o carro disse ao Namorado que teria sido um dia excelente para fazer urgência de cirurgia no Hospital de Cascais porque de certeza que ia haver muita coisa para fazer, inclusivé facadas. Não me enganei).
Aquilo que me surpreendeu foi a quantidade de crianças que lá estavam. E quando digo crianças não estou a falar das miúdas e dos miúdos de 13 anos que acham que já são crescidos e que vão sair à noite ao concerto sozinhos. Estou a falar de crianças pequenas. Bebés. 2 anos. 3 anos. Até passou uma senhora à minha frente no meio da confusão com um bebé ao colo que não teria mais de 3 meses. A minha pergunta é: O que é que passa na cabeça destes pais? O que é que leva adultos teoricamente responsáveis a levarem bebés de colo a um concerto com 90.000 pessoas onde se prevê que venha a haver confusão? Ainda por cima a furarem entre a multidão com miúdos ao colo! Que eles queiram ir e não se importem de arriscar eu percebo. Eu fiz o mesmo. Acreditei (talvez ingenuamente) que por estar "em casa" saberia sempre como me desenrascar se as coisas dessem para o torto. Mas jamais levaria uma criança comigo. Muito menos um bebé.
Há gente louca. E que bate a pontos os tipos do "meet".
Já não me lembro quando foi o último ano em que não fui ao último dia destas festas. E por isso mesmo, apesar de não ser a maior fã do Anselmo, acabei por ir pelo convívio, pelo fogo de artifício (que adoro), e já agora porque a cavalo dado não se olha o dente (porque pagar para ir ver o Anselmo Ralph já me custava, mas assim de graça pareceu-me bem).
Chegámos em cima da hora do concerto e o grupo acabou por se separar no meio da multidão. Nunca tinha visto a baía assim. Nada que não estivessemos já à espera. Tinha-se antecipado que lá estivessem 90.000 pessoas. Não deve ter andado longe disso.
Tinha lido sobre o "meet", e por isso estava alerta. O concerto foi bom, não me senti minimamente insegura enquanto lá estive (senti-me como uma sardinha em lata, mas segura) e tive o bom senso de me pôr a andar dali para fora quando comecei a achar que os ânimos se estavam a exaltar e que podiam começar a haver problemas. À saída da baía cruzámo-nos com a polícia de intervenção (havia MUITA polícia nas festas, ao contrário do que já ouvi nas notícias) e acabámos por decidir ir mesmo para casa ainda antes do fogo de artifício por precaução.
Agora vamos àquilo que me impressionou verdadeiramente. Não foi o facto de a baía estar tão cheia (já sabia, foi noticiado a semana toda que esperavam 90.000 pessoas). Não foi o terem havido desacatos e ter havido pessoal a levar facadas (já sabia que ia acontecer. Aliás, assim que estacionámos o carro disse ao Namorado que teria sido um dia excelente para fazer urgência de cirurgia no Hospital de Cascais porque de certeza que ia haver muita coisa para fazer, inclusivé facadas. Não me enganei).
Aquilo que me surpreendeu foi a quantidade de crianças que lá estavam. E quando digo crianças não estou a falar das miúdas e dos miúdos de 13 anos que acham que já são crescidos e que vão sair à noite ao concerto sozinhos. Estou a falar de crianças pequenas. Bebés. 2 anos. 3 anos. Até passou uma senhora à minha frente no meio da confusão com um bebé ao colo que não teria mais de 3 meses. A minha pergunta é: O que é que passa na cabeça destes pais? O que é que leva adultos teoricamente responsáveis a levarem bebés de colo a um concerto com 90.000 pessoas onde se prevê que venha a haver confusão? Ainda por cima a furarem entre a multidão com miúdos ao colo! Que eles queiram ir e não se importem de arriscar eu percebo. Eu fiz o mesmo. Acreditei (talvez ingenuamente) que por estar "em casa" saberia sempre como me desenrascar se as coisas dessem para o torto. Mas jamais levaria uma criança comigo. Muito menos um bebé.
Há gente louca. E que bate a pontos os tipos do "meet".
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