terça-feira, 23 de agosto de 2011

De volta!

Pela primeira vez desde que me lembro, não achei que 3 semanas de férias no Algarve fossem demasiado. Normalmente na última semana já começo a ponderar se não valia mais pôr-me a pé a caminho de casa, mas desta vez achei que foi o tempo perfeito. Conheci gente, diverti-me à grande, fui a todas as festas que houve na praia até nascer o sol. Reencontrei pessoas que não via há anos. Estive com o Joãozinho. O meu Joãozinho. O meu primeiro "namorado". Daqueles em que se conta até 3 antes de se dar um beijinho e que depois nos deixa corados. Diz ele que se lembra bem de brincar comigo. Disse-lhe que também me lembrava de brincarmos na varanda da minha avó e rimos os dois porque ambos nos lembramos do que era termos 3/4 anos e estarmos "perdidamente apaixonados" um pelo outro nos intervalos em que não eramos power rangers em missões complicadas.
Estive com os meus primos, os meus pequeninos que já estão a crescer, as mini-pessoas que me dão o meu sorriso mais espontâneo assim que os vejo ao longe, assim que sei que vão chegar. A C., o K. e o T.
E agora cheguei. Cheguei para encontrar no correio uma carta e um postal endereçados à Dra. Jo. Dra!?!! Eu!!?!? Vai demorar a habituar-me (raio de Bolonha, sempre a querer fazer sentir-me mais velha).
Durante esta semana vai ser festa. Todos os dias, almoços, jantares, lanches, concertos, é para o que der. E vai saber bem. E domingo adeusinho outra vez, que as minhas 2 semaninhas de estágio a sul esperam-me!

sábado, 30 de julho de 2011

Nota de alta

Doente, sexo feminino, 21 anos, caucasiana, reside com os pais e irmão, independente nas actividades da vida diária.
Deveria dar entrada no Serviço de Urgência Psiquiátrica da área de residência devido a quadro arrastado de excesso de visualização de comédias românticas que a levam a ter ideias delirantes sobre como a vida devia ser.
Orientada no Espaço e no Tempo. Hemodinânicamente estável, sem alterações a destacar ao exame objectivo, nomeadamente a nível da pele e mucosas, auscultação cardíaca e pulmonar, abdómen, e dos membros. Exame neurológico sumário OK. A destacar apenas brilho nos olhos e sorriso parvo em contextos desadequados, nomeadamente quando pensa em coisas e pessoas que não devia (dados a confrontar posteriormente com o quadro de excesso de visualização de comédias românticas). Sem alterações analíticas.
Após meses de boa evolução clínica dos quais há apenas a destacar algumas recaídas em crise de estupidez aguda pelo meio tem alta com indicação para cumprir a seguinte terapêutica:
- 3 Semanas de férias no Algarve com restrição de alguns destinatários de SMS (a doente está a ser seguida pela Dra IL e encontra-se de momento esclarecida quanto a essa situação).



Aos que as vão ter, BOAS FÉRIAS:)

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Metade já lá vai

E passou tão rápido!!!
Agora é apenas uma questão de burocracias e acho que posso dizer que sou licenciada (ainda nem me habituei à ideia). Segue-se o mestrado, que é integrado, e sem o qual não poderia fazer praticamente nada. É Bolonha no seu melhor, mas para os devidos efeitos, sim, estarei licenciada assim que os senhores da secretaria se dêm ao trabalho de passar as minhas notas todas para o sistema informático.
Há 3 anos atrás estava a roer as unhas a pensar se ficava cá ou se ia para Navarra. Tinha sido admitida e só estava mesmo à espera de saber se tinha entrado cá ou não para decidir o meu destino.
Quando soube que tinha entrado cá foi um misto de alegria com tristeza. Por um lado tinha aquilo que sempre tinha querido. Entrar na Faculdade de Medicina que eu via como mais prestigiada do país, relativamente pertinho de casa, tudo de acordo com o que há alguns anos planeava. Mas por outro lado senti a aventura de ir para fora fugir. Senti a minha tão desejada independência a ficar bem atadinha à minha casa de sempre. Já me tinha imaginado sozinha aos fins-de-semana a passear pelas ruas lindíssimas de Navarra. A correr no campus para fazer um exercíciozito. A conhecer um monte de gente nova, com outra língua, outra cultura. A fazer noitadas com os amigos, não sempre porque sou responsável, mas de vez em quando, muitas mais do que as que faço cá. A não ter de dar justificações a ninguém de para onde ia, de onde vinha, a que horas chegava ou até de se se passava alguma coisa.
De qualquer forma fui eu que escolhi ficar. Podia ter ido se assim o quisesse, entrei por mérito meu. Estudei o programa do 12º ano espanhol em umas 3 semanas. Concorri em igualdade de circunstâncias com os alunos espanhois, fiz prova de espanhol igual à deles e mesmo assim entrei. Por isso os meus pais disseram que se eu quisesse mesmo ir faziam o esforço. E eu ainda ponderei, mas acabei por decidir ficar.
De vez em quando pergunto-me se terei feito bem. Se não valia mais ter ido, ter deixado isto tudo para trás e começado do zero, partido à aventura a ver no que dava. Mas regra geral chego sempre à mesma conclusão. Ainda bem que fiquei. Não sei o que teria acontecido lá, mas sei que cá, regra geral, nestes 3 anos até fui muito feliz. Foi nestes 3 anos que vivi os melhores momentos da minha vida até agora e também alguns maus momentos mas que não foram insuportáveis e por isso o balanço é estupidamente positivo. Conheci pessoas que encheram a minha vida, tanto tanto tanto que são aquelas pessoas que me fazem sentir que não preciso de mais nada desde que esteja ali com elas. E, tal como teria acontecido se tivesse ido para fora, as pessoas que valiam a pena ficaram e as que não valiam foram esquecidas.
Cresci. Não sei se tanto como se tivesse ido para fora, mas sinceramente não queria ter crescido mais. Já me acho demasiadamente madura, já me sinto tantas vezes tão crescida que dispenso qualquer crescimento acrescido que o estudar fora me pudesse ter trazido.
Teria sido diferente com toda a certeza, mas não sei se teria sido melhor.
Cá foi bom. E o melhor ainda está para vir.
Anos clínicos, aqui vou eu!

domingo, 17 de julho de 2011

Não correu mal, não senhora:)

Pois que o rapaz lá teve mais ou menos as notas que estava à espera. Pelo menos para um dos cursos que ele gostava dá para entrar garantidamente com uma boa margem, portanto está contente:)
Obrigada pelos comentários:)

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Daqui a umas horas

Daqui a umas horas a família toda vai sair de casa para ir ao colégio ver as notas dos exames do meu irmão.
Acho que estou mais nervosa do que ele. Afinal, eu já estive naquele lugar. 2 vezes. E sei bem o que é chegar à pauta e ter surpresas desagradáveis, daquelas que comprometem aquilo que tinhamos planeado. Não nos mata. Também não sei se nos torna mais fortes, mas torna-nos diferentes. E, se fosse possível, seria bom que ele saltasse essa mudança. É que estraga um bocadinho o espírito das férias de Verão. Por isso vá, façam figas!

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Estágio Hospitalar - dia qualquer coisa que já perdi a conta

O estágio já vai a mais de meio e já estou a ficar com saudades.
Já estou a fazer bastantes mais horas do que seria suposto (4 horas, onde é que isso já vai); a fazer bastantes mais coisas do que seria suposto (exames, consultas, urgências, tudinho); a ver coisas fascinantes (a quem possa interessar hoje vi uma febre escaro nodular. E não imaginam o meu entusiasmo a ver a descrição dos livros ali à minha frente). Tem sido fantástico. Hoje entrei às 9.30, saí às 16:00, voltei às 22:00 e cheguei agora a casa (11 horinhas e meia de hospital). Agora é dormir 5 horihas e amanhã às 9.30 já lá estou outra vez, feliz como tudo e já com um bocadinho de nostalgia.
Também já vi coisas menos boas, não pensem que tudo são rosas. Hoje assim que lá cheguei às 22:00 fui logo acompanhar a minha médica para informar um doente que se sentia optimamente de que tinha uma leucemia muito grave. E logo depois fomos certificar um óbito, que é para eu não achar que ali tudo é maravilhoso.
Mas acho na mesma. Porque grande parte dos doentes saem e até saem curados. E eu tenho o privilégio de os ver melhorar de dia para dia e de contribuir um bocadinho para isso. Sou ou não uma sortuda?

sábado, 25 de junho de 2011

Estágio hospitalar - dia 13

Cheguei e a distribuição dos doentes já estava feita. Foi-me atribuída uma senhora que tinha dado entrada no serviço na véspera. Fui consultar os registos e não havia lá quase nada sobre ela. Uma senhora já na casa dos 80, com uma prótese na anca que tinha dado entrada por uma infecção na pele e já tinha começado o antibiótico há 1 dia. A minha função seria fazer uma nota de entrada da senhora, ou seja, perguntar-lhe o nome completo, a idade, se sabe em que ano estamos e onde está, se vive sozinha, se é autónoma nas actividades da vida diária, se tem algum antecedente pessoal relevante, qual a medicação que faz habitualmente, porque é que deu entrada nas urgências, pedir-lhe para descrever tudo o que sentia ao pormenor, e por fim avaliar como é que ela se sentia hoje. Fazer um exame completo, passando pelos olhos, língua, coração, pulmões, barriga, pernas, pressão arterial, frequência cardíaca, temperatura, saturação de oxigénio, tudo direitinho para que não falte nada. Tem sido o meu dia-a-dia ultimamente, começa a ficar sistematizado na minha cabecinha e começo a sentir-me relativamente confiante a fazê-lo.


Entrei no quarto e cumprimentei a senhora.


Jo: Bom dia Dona MR.


D. MR: Bom dia.


Jo: Como é que se sente.


D. MR: Melhor, melhor… quero é ir-me embora daqui! Pode chamar o meu médico?


Jo (com o ar mais confiante que consegue fazer e com um sorriso agradável): Hoje vou ser eu a sua médica.


D. MR olha-me de cima a baixo: HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA (pára. Faz um ar de pânico) A sério?


Jo (novamente com o ar mais confiante possível mas com a auto-estima a rasar o chão): A sério! Vou fazer-lhe algumas perguntas e fazer-lhe um exame completo, pode ser?


D. MR (com aquele ar de “só me saem destas”): Vá, faça lá…


Mas aquilo até nem correu mal. No final já estávamos grandes amigas e já merecia o tratamento de doutora. Foi só ver-me a sair e a entrar no quarto novamente com uma seringa na mão e passei logo a ter outro estatuto.


D. MR: Ai doutora doutora, que eu detesto picas.


Jo: Nem vai sentir nada, vai ver (mentira, eu sei que aquilo dói que se farta, mas se lhe dissesse isso acho que a senhora fugia).


Não doeu quase nada.


D. MR: Obrigada pela atenção doutora.


Jo (já com alguma auto-estima): Ora essa, de nada dona MR.



Nota: A partir de agora vou começar a ir para o hospital maquilhada, de saltos altos e de cabelo arranjado. É que para os rapazes isto é fácil! Deixam crescer a barba e de repente já parecem figuras de autoridade. Agora eu, não há maneira de tirar a minha cara de 21 aninhos!